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Vigia é enterrado sem familiares, enquanto multidão vela professora

Por Sergio Santos | 06/10/2017 21:47

Ao mesmo tempo em que uma multidão acompanhava o velório da professora Heley de Abreu Silva Batista, de 43 anos, em Janaúba, no Norte de Minas, o corpo de Damião Soares dos Santos, o homem de 50 anos que jogou gasolina no próprio corpo e em diversas crianças que estavam da creche Gente Inocente, foi enterrado sem preces e sem familiares, na tarde desta sexta-feira (6), na presença de apenas cinco pessoas.

No cemitério São Lucas, os poucos presentes contaram  que os parentes ficaram com medo de retaliações e preferiram não comparecer ao cemitério. Com a ajuda de um desconhecido, o funcionário da funerária carregou o caixão.

Dois moradores que conheciam Damião lamentaram a situação. “Esse moço morou perto da casa da minha mãe por um ano. Ele morava sozinho, mas era um homem alegre. Não tinha dia de mau-humor”, contou o foguista Milton Rodrigues dos Santos, de 50 anos.

Para a aposentada Maria Martins, de 67 anos, ao menos alguém da prefeitura poderia ter acompanhado a cerimônia. “Ninguém sabe o que aconteceu com ele, e se ele estava doente. Todo mundo merece uma prece”, disse.

Despedida de heroína

Enquanto isso, milhares de pessoas se comoviam e oravam durante o velório da professora Heley, que deu sua vida para salvar várias das crianças que estudavam na creche. Com o próprio corpo em chamas, a professora tentava abafar o fogo ao mesmo tempo em que tirava os alunos pela janela – o vigia havia fechado a porta. A morte de Heley foi confirmada na noite dessa quinta-feira (5).

"Abençoa senhor as famílias amém", cantarolavam mais de 500 pessoas na despedida emocionante do corpo de Heley. O padre que celebrava a missa fúnebre sob um sol fervendo característico do Norte de Minas pediu especialmente que todos abençoassem com as mãos estendidas a família de Heley para que o bebê dela, de 1 ano, pudesse crescer bem sem a mãe. 

A benção foi estendida a todos "para que possamos viver com segurança e proteção", rezou o padre antes que o caixão fechado fosse levado para o caminhão do Corpo de Bombeiros em cortejo a caminho do cemitério. O marido da professora, amparado por uma tia, seguiu junto ao caixão. A mãe dela já não estava mais no velório que durou sete horas - durante a manhã, ela já dava sinais de que não aguentaria ir até o fim.

"Segura na mão de Deus e vai", dizia o canto final prosseguido por um minuto de fortes palmas que desejavam a Heley uma partida em paz depois de tanto sofrimento e luta.

Professora há quase 20 anos, ela era apaixonada por crianças e muito querida na cidade. A mãe da professora, dona Valda, disse que sua casa ficou lotada de visitas na tarde dessa quinta, quando a morte ainda não estava confirmada. A perda que dona Valda teve nesse dia 5 de outubro remete à que Heley teve há 12 anos. A professora perdeu um filho recém-nascido após ele morrer afogado em uma piscina.


Duas novas vítimas

Nesta sexta-feira, o Hospital da Santa Casa de Montes Claros confirmou o óbito de mais duas vítimas da tragédia em Janaúba. De acordo com o Corpo de Bombeiros e com a assessoria de imprensa do hospital, Cecília Davine Gonçalves Dias, de 4 anos, e Yasmim Medeiros Salvino, também de 4 anos, estavam em estado grave e acabaram não resistindo aos ferimentos.


Fonte: O Tempo